![]() |
|
|---|---|
|
Diário On-line
16 de Dezembro
A equipa de João Garcia levantou-se bem cedo, numa manhã marcada pelo frio intenso. A montanha situada a norte do acampamento, o belo monte Shinn, fez com que este permanecesse à sombra. Todas as operações de desmontagem do equipamento foram efectuadas com luvas e algumas tarefas revelaram-se ridiculamente difíceis. Os trenós foram carregados e os alpinistas iniciaram a descida fugindo da sombra, em busca do Sol para aquecer o corpo e a alma. A equipa atingiu o Campo Base em apenas três horas e encontrou o avião à espera. Foi então necessário aguardar o regresso dos americanos de modo a perfazer o número mínimo de passageiros (8 a 10) para tornar viável o voo. As notícias indicavam que o Ilusion teria deslocado de Punto Arenas rumo a Patriot Hills. No entanto, no Campo Base, apesar do céu se encontrar limpo, os ventos cruzados eram superiores a 20 nós. Os americanos felizmente não demoraram muito e foi possível realizar o voo de regresso a Patriot Hills. João Garcia adormeceu durante a viagem. De facto, o Ilusion não efectuou o voo previsto e os alpinistas voltam à conhecida indecisão face ao regresso à Europa. Iniciou-se mais uma vez o jogo do controlo da ansiedade e da expectativa. 15 de Dezembro
Dia de repouso no Campo I. Após a ascensão de ontem, João Garcia e os seus companheiros, ao regressarem do cume e chegarem à tenda depois das três da manhã, acabaram por se deitar tarde. Ao serem os primeiros a fazer cume não tiveram pressa em descer ao Campo Base e apanhar o voo de regresso a Patriot Hills. Os alpinistas passaram o dia a repousar, a dormitar tanto quanto permitiu a luminosidade e o calor dentro da tenda. À tarde souberam que uma equipa de americanos fez cume e, deste modo, já seria possível mandar vir um pequeno avião de Patriot Hills para efectuar o regresso. Assim talvez ainda seja possível apanhar o Ilusion. 14 de Dezembro
O tempo mantém-se bom. João Garcia instalou a tenda mesmo no meio do glaciar para, desta forma, aproveitar 18 horas de radiação solar directa. Um aquecimento da tenda a não desprezar.. A equipa tomou um pequeno almoço reforçado pelas 9 horas. Hora solar. "Sem Sol nada feito." Os alpinistas partiram pelas 11 horas em direcção ao Campo III, que não utilizaram, pois decidiram fazer a subida directamente do Campo II até ao cume. O Campo III foi alcançado em três horas. No local fez- se sentir um intenso frio que obrigou ao uso de equipamento de protecção da face. A equipa de João Garcia chegou ao cume pelas 23 horas, com uma temperatura agradável de -23º C e muito pouco vento. Junto do topo encontrava-se uma garrafa com um livrinho onde todos aqueles que fazem cume assinam. A estas latitudes e nesta época do ano o Sol nunca se põe. As vistas sobre a cordilheira Ellsworth e o vizinho Shinn (4861 m) são magníficas. Uma pirâmide perfeita que João Garcia irá tentar escalar no dia 15 de Dezembro. A equipa iniciou a descida à meia-noite, de regresso à tenda. 13 de Dezembro
A equipa de João Garcia subiu do Campo I ao Campo II em quatro horas: 2700 a 3100 metros. Dia calmo. Com subidas pouco inclinadas. Um bom dia de Sol. João Garcia avistou algumas equipas de outras expedições, ao longe, a subir a parte mais inclinada do glaciar. Fazem carregamentos para deixar cargas no local do Campo III. A equipa de João Garcia vai tentar cume já amanhã, porque as previsões meteorológicas indicam agravamento do estado do tempo. 12 de Dezembro
Ontem João Garcia deitou-se tarde e acordou várias vezes com sede. De manhã a equipa recebeu boas notícias. O responsável pela base de Patriot Hills disse que iria estar bom tempo: o que significa poder voar. Efectuou-se o reabastecimento do avião e o embarque de todo o equipamento. A emoção ao descolar foi intensa a bordo dessa grande "caranguejola" voadora. As vistas aéreas conseguiram ser ainda mais bonitas do que as magníficas paisagens que se disfrutam no solo. Como o ar é muito seco a visibilidade é muito boa, talvez superior a 50 quilómetros. Quase por todo o lado surgem cadeias montanhosas que parecem romper o deserto branco de gelo. Estas montanhas escuras demonstram a agressividade do frio que destrói as rochas e as talha em estilo alpino. O voo, de 50 minutos de duração, percorre os cerca de 220 quilómetros que separam Patriot Hills do glaciar de Brascomb. A aterragem a cerca de 200 metros de altitude foi muito suave e o João Garcia teve novamente uma estranha sensação de dejá-vu. Relembro-se das aterragens no Alaska em que a preocupação se centrava também mais no filmar do que no apreciar das vistas. A equipa do João Garcia mal deixou o avião, ao contrário de outra que preferiu ficar logo ali, decidiu subir. Os alpinistas colocaram o arnês, a corda, as raquetas de neve e os bastões e começaram a testar os cerca de 50 quilogramas de peso do trenó. A subida foi iniciada às 17 horas e após algumas paragens, para comer e beber, os alpinistas decidiram, às 22 horas, montar as tendas num magnífico planalto. O primeiro acampamento, a 2700 metros de altitude: o Campo I. Depois de jantar, João Garcia escreveu o seu diário. Já estavam cerca de 30º C negativos e a noite ainda iria ser mais fria, pois o Sol fica cerca de 12 horas detrás da montanha chamada "Vinson". 10 de Dezembro
João Garcia já se encontra no continente Antárctico. O telefone tocou às 5.20 da manhã para dar as notícias tão esperadas. Preparar tudo para, dentro de uma hora, partir rumo à Antárctida. Os alpinistas aprontaram-se sob uma estranha sensação de dejá-vu. O autocarro recolheu os alpinistas alojados em diversos hotéis de Punto Arenas. Estes mostram um ar confiante apesar dos reveses dos últimos dias. As pessoas que se encontravam no aeroporto acolheram o grupo de expedicionários com alguma surpresa perante o facto de estarem equipados a rigor para o frio. A descolagem foi acompanhada de grande emoção e do ruído ensurdecedor dos quatro reactores. Os cerca de 30 passageiros, de países e grupos diferentes, sorriram e partilharam as cumplicidades e expectativas de quem vai (para muitos pela primeira vez) viver uma aventura no continente gelado. A aterragem efectuou-se sobre um campo de gelo e a saída do avião foi acompanhada de um choque térmico: os alpinistas saíram de 20º C para -20º C. João Garcia está preocupado com as consequências dos nove dias de atraso da expedição. Provavelmente irá impedir que regresse a Portugal antes de ir para a expedição que irá liderar no Aconcágua, já no final do mês. O regresso a Punto Arenas está previsto para dia 21 de Dezembro. Parte do equipamento para a expedição ao Aconcágua encontra-se em Lisboa. Por enquanto João Garcia está num acampamento a aguardar o voo que o irá conduzir até ao campo base do Vinson. As condições climáticas mantêm-se instáveis mas o moral permanece elevado. Dia 8 de Dezembro
João Garcia ainda se encontra em Punta Arenas, apesar de ter havido uma pequena "janela de bom tempo" que parecia permitir a viagem até aos gelos antárcticos. Depois de uma intensa "correria" para pagar as contas do hotel, carregar o equipamento, vestir as roupas de montanha e rumar ao aeroporto chegou a notícia de que seria impossível efectuar o voo. Os ventos intensos voltaram novamente a impossibilitar qualquer tentativa. Os alpinistas estão portanto a enfrentar a angustiante espera, face ao passar das horas e dos dias. A situação levou o João Garcia a afirmar: "os deuses estão a testar-me". No entanto, a equipa está motivada e tem aproveitado para passear. Dia 5 de Dezembro
Os ventos agora baixaram mas três camadas de nuvens instalaram-se de maneira que continuam de 3 em 3 horas em stand bye... um duro teste a paciência. Dia 30 de Novembro
Decidiram visitar a ilha Pinguineira de Magdalena que fica a uns 26 milhas de Punta Arenas. É uma experiência inesquecível de natureza e vida selvagem, pois crê-se que ali vivem e se reproduzem cerca de 60.000 exemplares do Pinguim de Magalhães. De regresso, fizeram mais uns ajustes aos dois trenós que lhes servirão de transporte do equipamento. Pesam e entregam a bagagem para ser transportada para o aeroporto, onde ficará em stand bye. As expectativas são muitas tudo dependendo do tempo. Os contactos com as operações de 6 em 6 horas, diziam nos que estava um vento, em Patriot Hilss, de 28 knots, vento cruzado, demasiado! Era preciso esperar. Dia 29 de Novembro
Ficaram instalados no hotel Condor de Plata, lugar histórico e ponto de passagem de muitos alpinistas e exploradores antárcticos como atestam os posters e cartões afixados no hall do hotel. Nesta localidade prezam-se muito as colecções de porta chaves, chavetas e pires, moedas e notas de todo o mundo. Apesar de se ter levantado cedo, João Garcia não foi o primeiro. Fez uma visita rápida ao centro de Punta Arenas, cidade cheia de história à beira mar e com uma construção típica americana. As ruas parecem ter sido desenhadas com uma quadricula facilitando a orientação no labirinto das suas lojas. Estava frio o que não era de esperar obrigando-o a vestir a roupa polar para a expedição. 10h da manhã - reunião com a agência que opera os voos para Patriot Hills ( se conseguissem arranjar um mapa com a localização de Patroiot Hills e do Monte Vinson era porreiro), a agência Polar Logistics que substituiu a anterior Adventure Network. Novidade: já não operam com o Hercules C130 que levava 6h de voo ate lá, mas sim com um avião de fabrico russo, um Ilusion 74, que supera o anterior em 3h, leva mais carga e (dizem eles ) é mais seguro. Briefing para todas as equipas que partilham este voo: Jeff Simmers e companheiros que tentam uma ida a pé ao Pólo Sul em 30 dias, Jeff Nite, engenheiro UK que testa um carro beigui. de 6 rodas para transportes logísticos, o Alin, um tal de David com mais dois companheiros para o Vinson, mais 4 da Adventure consultants (NZ), Wally Berg com um companheiro diabético (insulino-dependente) e mais a IMG - Internacional Mountain Guides US com 6 pax e mais uma equipa de 5 técnicos que vão tentar reparar um DC-3 que partiu o trem de aterragem (o custo desta reparação é de 500,000 USD). Enfim, eram uns 18 a fretar o voo que estava previsto para o dia seguinte ou quando o tempo o permitisse. Dizem-lhes que tudo se passará como num aeroporto internacional: a bagagem de mão é verificada, não podem levar canivetes nos bolsos e há limites de peso. Porque a hora do embarque era incerta tinham de estar já vestidos para o gelo e ficar sempre contactáveis para quando fosse its a go correrem ao hotel, mudarem de roupa e apanharem transporte para o aeroporto. controlarem a ansiedade. não esquecer de ir ao wc antes de embarcar pois um cargueiro só tem garrafinhas. de que ao saírem do avião têm gelo . de se afastarem dos motores. recuar, deixar a tripulação descarregar o avião e não esquecer nada lá dentro pois uns 20 minutos depois o avião já está de regresso. A partida deve ser a 1 de Dezembro. Dia 28 de Novembro
João Garcia chegou a Punta Arenas vindo de Lisboa. Mas a viajem não foi assim tão simples: de Lisboa para Frankfurt foram 3h, de Frankfurt até São Paulo foram 11h, daí para Santiago mais 3h e finalmente para Punta Arenas mais 3h. e isto sem falar no facto de que na véspera da partida, como tem acontecido nas últimas expedições, a última noite em Lisboa foi passada numa directa a tratar de deixar "as coisas arrumadas" para mais uma viajem de umas quantas semanas. Na paragem em São Paulo aproveitou para telefonar ao Paulo e a Helena Coelho (Evereste 99) a dar notícias. Ficaram muito contentes com as novidades e desejaram boa sorte. Também em Santiago no Chile, aproveitou para dar uma volta e visitar o amigo Marcelino do Hotel Paris. João Garcia confirmou então as reservas para o grupo do Aconcágua (27Dez-16Jan). Esta será a sua sétima viagem à sentinela de pedra (Aconcágua), tendo sempre ficado instalado neste hotel. Chegou a Punta Arenas pelas 23h e aí o esperavam Alain Huber e Christine Joris. João Garcia conhece o Alain do Evereste 1999 e do Gasherbrum 2001. É um expert polar, tendo já atingido tanto o Pólo Norte como o Pólo Sul a pé e pelos seus próprios meios. Esta é a sua sétima viagem (1ª ao Vinson) à Antarctida e diz que já passou mais de um ano da sua vida neste continente. A Christine é uma alpinista belga de Bruxelas e também esteve com eles na expedição ao Gasherbrum de 2001. João Garcia não sabia da sua vinda mas ficou contente pela novidade. |
|