Escalada em Gelo - COGNE (AOSTA)
por Paulo Alves
Fevereiro 2004
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Do topo da Cascade de Lillaz para o vale Lillaz-Cogne
(foto: Paulo Alves) |
Um Inverno sem praticar escalada em gelo fica incompleto para quem já se tenha afeiçoado a esta modalidade, cada vez mais difundida entre os alpinistas. Após alguma perseverança e com bastante sorte, essa lacuna ficou preenchida com uma viagem até às cascatas de gelo dos Alpes.
Foi a solução para um Inverno fraco em gelo por cá, numa viagem que já fazemos com alguma frequência pois, após conhecer algumas das melhores zonas de gelo da Europa, a tentação é sempre forte para lá voltar.
Sendo a zona de Cogne um objectivo antigo, a ida deste ano também se deveu às informações muito positivas dadas pelo Lorenzino Cosson1 e pelo Stephan Schaffter2. Ele tinha estado em Cogne duas semanas antes e disse-nos que as condições estavam óptimas, o que ainda consolidou mais a nossa vontade de partir. O Gerard Pailheiret, guia no Fournel (cerca de 200 km a SW de Cogne) também nos disse que as condições locais eram boas e que a meteorologia não lhe parecia tão má como nos constou.
A decisão de partir foi tomada no fio da navalha, com grandes nevões a acontecer pela Europa, e a indiciar - até de acordo com vários sites de meteorologia - que o tempo iria estar quase sempre mau. Felizmente fomos e afinal o tempo esteve sempre bom, apenas com alguns nevões já no trajecto de regresso ao atravessar Espanha.
Tivemos assim direito não só a super bom tempo durante todos os dias de actividade, mas ainda à fantástica beleza dos Alpes, com florestas cheias de neve recente e pequenas aldeias devidamente cobertas de branco. E a boa sorte até nos deu acessos desimpedidos, pois chegámos 2 ou 3 dias depois dos nevões, já com estradas abertas e mesmo alguns caminhos em montanha já percorridos por outros escaladores ou esquiadores. Se de frio se falar, realmente passámos quase dias inteiros sempre à sombra, com mínima entre -12 e -17ºC, e máxima entre -6 e 0ºC. Mas é o tempo seco dos Alpes e a roupa que se leva para o gelo é adaptada a isso ; só houve um dia em que praticamente todos sofremos a sério com o frio.
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"Pattinaggio Artistico" e o conjunto "X Files", "Hard Ice", "Riacamo"
(Valeille)
(foto: Paulo Alves) |
Na aldeia de Gimillan, sobranceira a Cogne e batida pelo Sol da manhã, havia albergues muito utilizados por escaladores, alguns dos quais cheios, sem um único quarto livre, mas conseguimos um bom alojamento alugando dois quartos num chalet particular.Mas felizmente que essa aparente quantidade de praticantes de gelo não causou, em geral, embaraços de maior. Nos 4 dias de semana em que escalámos havia quase sempre cascatas de gelo boas e desocupadas, mas no último dia, um sábado, o Francisco e o Cisco quiseram ainda ir escalar (enquanto nesse dia fui eu fazer ski) e a confusão era total. Todas as cascatas ocupadas e, em geral, até com várias cordadas ! Como é que não há mais acidentes aqui, já que uma regra de ouro é não escalar em gelo por baixo de outra cordada ?
E por fim um elogio às óptimas pistas de ski de Cogne. Voltadas a Norte e bem cuidadas, com 4 "vermelhas" e 1 "negra", largas e bem inclinadas. E com pouca gente, excepto no único troço final de descida, que passa pela única pista existente para iniciação. Conseguimos aqui bom entretenimento no ski, sem filas e a preço bem mais económico do que noutras estações, como em Font Romeu, nos Pirinéus, onde parámos no segundo dia de viagem para esquiar.
O regresso fez-se com alguns nevões pelo caminho, ouvindo pelas notícias que nos Pirinéus Ocidentais a confusão era total, com a estrada internacional fechada pelos nevões e centenas de camiões e carros bloqueados. Mas o nosso caminho era pelos Pirinéus Orientais e Barcelona. Em 22 horas praticamente sem parar viemos de Cogne até Lisboa.
Participaram nesta viagem: Paulo Alves, Maria do Céu Almeida, Francisco Silva e Francisco Sancho (que forneceu a voiture; obrigado Cisco, o teu carro é fixe).
Para o ano há mais ?
Comentários práticos
Que gelo e onde. Quando se fala de escalada em gelo consideram-se dois tipos de zonas: - as grandes (e pequenas) vias de gelo por exemplo dos Alpes, situadas sobretudo em alta montanha e assim exigindo à partida alguma aclimatação à altitude (com predominância de gelo alpino, AI = Alpine Ice); e áreas a menor altitude mas com grande densidade de gelo, neste caso também pontualmente com AI, mas onde predomina o gelo temporário tipo WI (Water Ice).
Como exemplos do segundo tipo de zonas, que foi o escolhido, como é habitual nesta época, temos Gavarnie, nos Pirinéus, ou Fournel, Freissinières, Cogne, Ceillac, Sixt, La Grave e Argentières, nos Alpes, para não incluir também (por logo à partida não as termos considerado como destino possível), o Ben Nevis (Escócia) ou o Spitsberg (Noruega). Mas claro que a lista não é exaustiva.
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Na 2a cascata do Cold Couloir, perto da reunião intermédia
(foto: Francisco Sancho) |
Reunir um grupo. Para pensar num regresso a zonas de excelência em termos de gelo, ideia que se consolidava desde Dezembro, constatou-se primeiro que o período mais fácil para todos seria nos 9 dias da semana de Carnaval. A ideia foi depois sugerida a um conjunto de cerca de 10 pessoas, na tentativa de, já a prever desistências, manter um grupo mínimo de duas cordadas. "Alimentando" o grupo com a ideia, com a tentação, de ir até ao gelo de alta qualidade que existe fora da Península Ibérica, lá se conseguiu, chegada a véspera da partida, ter 3 participantes certos e 1 hesitante. Com eventuais desistências, desmotivações, afazeres da vida e problemas de emprego e férias, é bom motivar um grupo grande, para ver se, chegada a hora, "existe" ainda gente decidida e com disponibilidade para partir (e se fossem mais pessoas, gelo não faltaria lá por fora).Cogne foi descoberta para a escalada em gelo sobretudo pelo falecido (no gelo) Gian Carlo Grassi e inclui actualmente cerca de 130 itinerários de gelo, para todos os gostos e cobrindo todo o leque de dificuldades e estilos. A extensão varia entre 20 e 600 metros, embora a maioria com 60 a 200m. Esta concentração de vias de ascensão só será suplantada pelo vale do Fournel.
As cascatas de gelo de Cogne dividem-se por dois vales principais, o de Lillaz-Valeille e o de Valmontey, ambos orientados N - S e paralelos entre si, e ambos com cascatas nas encostas E e W. No primeiro encontra-se grande diversidade de itinerários com marcha de aproximação menor que 1 h (acesso muito facilitado seguindo a pista de ski de fundo, que constitui a principal atração desportiva da região).
O acesso a Cogne faz-se a partir de Aosta (cerca de 20 km), cidade do Norte de Itália, a 1 h de Turim e a 1 h de Chamonix (pelo túnel do Monte Branco). A população da região de Aosta fala italiano e francês, além do dialecto local. Contactos : Turismo de Cogne (0039) 016574040, Turismo de Aosta 0165272723
Equipamento. Roupa para o frio e vento. Não esquecer lanterna frontal, cobertor de sobrevivência, mantimentos. Corda dupla, shock-absorbers, alguns friends e entaladores e, claro, não esquecer de afiar os piolets, crampons e pitons. Skis de montanha ou sobretudo raquetes de neve podem facilitar o acesso.
Topos. Recorremos ao livro "Cascades autour du Mont Blanc. Tome II. Valdigne. Val de Cogne." (F.Damilano e G.Perroux). Encontra-se, com alguma sorte, em Aosta, sobretudo na livraria francesa (e pode ser consultado ou requisitado na A.D.A.Desnível, bem como a carta topográfica da região, na escala 1:25.000).
Podem consultar-se os topos na internet em
www.immaginidacogne.it (opções: /mappe.htm, /pattinaggio1.htm e ainda /valnontey.htm). Antes de ir, convém obter informações muito concretas sobre as condições locais (gelo, neve, risco de avalanches, meteorologia), procurando na internet e telefonando a pessoas que conhecem.
E antes de escalar, combinem bem a "comunicação" entre escaladores, porque muito vento ou largos de 45 a 50metros não ajudam as pessoas a fazerem-se entender.
1 Nosso conhecido, responsável durante muitos anos pelo Soccorso Alpino da região de Aosta / Monte Branco.
2 Para quem não se lembra, é o guia suiço que no Congresso CIM 2002 apresentou o big-wall climbing no Karakorum e também o seu filme sobre o Everest.
P.Alves no "self standing" (4) da E Tutto Relativo" (I, 4+)
(foto: Francisco Sancho)P.Alves no 3ºlargo (3+) do "Cold Couloir"
(foto: Francisco Sancho)F.Sancho e F.Silva no 1ºlargo (3+) do "Cold Couloir"
(foto: Paulo Alves)F.Sancho e F.Silva na base do "Cold Couloir" (III, 4+, 600m), vendo-se os 3 primeiros largos.
(foto: Paulo Alves)







