Editorial
17/01/2007
Serra da Estrela - "A Jóia da Coroa"!
"A Jóia da Coroa do património ecológico do interior de Portugal", foi assim que Jan Jansen designou a nossa Serra da Estrela. Jan Jansen, é um dos botânicos contemporâneos que mais estudou a natureza da Serra da Estrela. De facto, a Serra tem características que a tornam única em Portugal, de tal modo que se encontra no imaginário da maioria dos Portugueses como uma serra emblemática. Desde o tempo em que Viriato combatia os Romanos e lhe chamava Montes Hermínios, que a Serra é palco de Aventuras e Aventureiros - desde guerreiros, pastores, cientistas, caminhantes ou simples incautos - até aos dias de hoje, ajudando a criar uma aura mítica à sua volta.
A paisagem actual da Serra da Estrela é o resultado de uma convivência equilibrada secular entre a actividade humana e os elementos naturais. A pastorícia e a agricultura foram durante anos parceiros respeitadores dos equilíbrios ecológicos serranos, de tal forma que passaram a fazer parte deles.
Mas os tempos são de mudanças profundas e a "Jóia da Coroa" começa a perder o seu brilho e a sua aura inexpugnável.
As gentes partiram quase todas para o "oásis" das grandes cidades e as que ficam já não são capazes de defender o que é seu por direito - as suas terras na Serra:
- Estradas de alcatrão rasgam consecutivamente a paisagem "democratizando" o acesso por todos a todos os lados da Serra;
- Constroem-se casas amontoadas, que alastram dos núcleos de altitude, fazendo lembrar bairros suburbanos e por vezes ilegais, numa tentativa de "urbanizar" a natureza;
- Planeiam-se infra-estruturas de utilidade e funcionalidade duvidosas para, por ventura, serem abandonadas no futuro;
- Promove-se a fancaria e o Turismo de rápido consumo em detrimento dos produtos típicos e da visita tranquila;
- Multiplicam-se os estabelecimentos hoteleiros sem se investir na oferta diversificada de actividades, tornando a Serra da Estrela o maior dormitório de férias, depois do Algarve;
Tudo isto, em nome de um pretenso desenvolvimento da região, da sua economia e da qualidade de vida das suas gentes, tendo como alavanca o turismo e em particular o turismo "da Neve". Mas se a aposta no turismo não for sustentável, pode não passar de uma aposta efémera e comprometer inclusive o desenvolvimento local a médio prazo. A estratégia adoptada nos últimos anos, em particular pela Região de Turismo da Serra da Estrela e pela Turistrela S.A., mas também com a colaboração de algumas Câmaras e do Governo Central, para o desenvolvimento turístico tem tido o efeito perverso de aumentar a sazonalidade e reduzir o potencial do turismo de Natureza e Rural para o qual a Serra da Estrela é, naturalmente, vocacionada. Por outro lado, no formato actual de desenvolvimento turístico, as populações locais pouco ou nada beneficiam dos projectos que tem vindo a ser anunciados, quer em termos económicos, quer em termos laborais - quantos empregos geraram os sessenta e tal chalés amontoados que foram construídos nas Penhas da Saúde? Ou os teleféricos planeados dos Piornos e de Alvoco para a Torre? Ou da expansão da estância de esqui? Que benefícios reais retiram as populações destes projectos e da constante abertura de acessos à Torre? Creio que tudo isto apenas faz com que os turistas passem pela Serra com mais rapidez, sem necessidade de se alojarem onde quer que seja ou consumir o que quer que seja - Turismo de consumo rápido.
Todos estes projectos beneficiam, essencialmente, as empresas que os executam e exploram. Todos estes projectos atentam contra o direito de desfrutarmos dos espaços naturais e de um ambiente "anti-urbano", atentam contra o direito de nos aventurarmos e de nos perdermos na Serra!
Ou seja, proteger o ambiente serrano não é um capricho, não é um fanatismo, não é falta do que fazer. Na realidade, proteger a serra é um direito que nos assiste, legitimo com qualquer outro.
Face a todos estes "ataques", contra os quais o ICN/PNSE tem sido manifestamente incapaz de responder satisfatoriamente, alguns cidadãos mais inconformados e com vontade de mobilizar outros, decidiram criar uma Plataforma que congregasse o maior numero de interessados nos problemas da serra, desde Clubes, Associações a cidadãos individuais, pois só assim se poderá alterar o rumo actual da situação. Nasceu assim, em meados do ano de 2006, a Plataforma pelo Desenvolvimento Sustentável da Serra da Estrela com o objectivo de combater projectos ostensivamente alheios à conservação do património Natural, Paisagístico e Cultural da Serra da Estrela e promover um desenvolvimento equilibrado e conciliador que permita ao maior numero de pessoas continuar a usufruir de um património que nos foi legado por anteriores gerações.
A Plataforma está consciente que a mobilização e integração das populações locais e da sociedade civil em geral neste movimento é fundamental para alcançar um real desenvolvimento que só o será se a Serra e a cultura das gentes Serranas beneficiarem mutuamente.
Até ao momento, fazem parte desta Plataforma a Associação de Desportos de Aventura Desnível, a Associação Cultural Amigos da Serra da Estrela, a Associação Distrital dos Agricultores da Guarda, a Liga para Protecção da Natureza, a Quercus - Associação Nacional de Conservação da Natureza, bem como outros cidadãos a titulo individual.
Volto a referir, PROTEGER a Serra da Estrela é um direito legítimo e não um capricho, um fanatismo ou falta do que fazer. A Serra não é um caso perdido, mas precisa da contribuição de TODOS!
Tiago Pais
