Editorial
2/02/2006
Desabamento no Mexilhoeiro
A evolução natural das falésias do litoral português passa pela queda de blocos isolados ou mesmo pelo desmoronamento de volumes importantes constituindo, quer uma realidade conhecida de quem frequenta estas zonas, quer um assunto amplamente estudado pela comunidade científica (abordagem esta que não faremos aqui).
É um fenómeno natural, mais ou menos previsível, mas para o qual não se pode atribuir um horário ou calendário.
Daqui advém um factor próprio da aventura que decorre em espaço natural, que é a sujeição às leis naturais, leis essas nada passíveis de legislação pelo Homem. A Sociedade em que vivemos, nesta Europa do Século XXI, preferiria, talvez, ter este assunto bem calculado e previsto.
Em escalada desportiva já se pressupõe haver cuidados das entidades ou praticantes que superintendem, enquadram ou organizam actividades e espaços, como é o caso de uma Escola de Escalada.
E no caso do Mexilhoeiro, já tem sido comentado na nossa associação Desnível que é muito pouco aconselhável equipar vias ou escalar no sector de tectos situado junto às escadas do Mexilhoeiro (à esquerda de quem desce). As dimensões deste imenso tecto, quando comparado com o tamanho dos blocos já caídos e com as fracturas visíveis no próprio tecto mostram que, mais ano menos ano (ou mais dia menos dia), algo acontecerá ali.
Mas não foi esta zona que esteve envolvida neste desabamento de Dezembro 2005.
O sector do desmoronamento, pequeno em termos geológicos, envolveu uma via que se divide em duas a partir do meio, situadas cerca de 40m à direita da escada.
É o Sector dos Quartos e são as Vias Múmia e Chili Com Carne. Parte da placa da base ficou, inclusive com as tiges, mas os blocos em ambos os lados e no topo desabaram, arrastando algumas das amarrações.
Uma visita ao local indica que ainda há instabilidade nessa zona da falésia, talvez a aguardar novo período de fortes chuvas, ocorrência que se supõe ter tido influência no desmoronamento dos primeiros dias de Dezembro.
Quem pratica escalada clássica ou equipa vias sabe que tem de avaliar muitas vezes a solidez da rocha.
E em vias de escalada clássica é usual subir por rocha pouco estável, mais ou menos ameaçadora. Por exemplo na via Espuma Branca do Espinhaço (Cabo da Roca), batendo com o martelo na enorme faixa de rocha extraprumada em que a via decorre no 3ªlargo, sente-se bem a fragilidade dessas talvez 40 toneladas de granito (que se espera não se incomodem com a passagem, de vez em quando, de um escalador).
Neste exemplo (entre muitos) a rocha não está estável, mas a via não deixa de existir por isso e de ser (raramente), frequentada.
Numa Escola de Escalada impõe-se maior prudência do que no terreno mais aventureiro da escalada clássica e este desmoronamento no Mexilhoeiro é um sinal útil de alerta para todos os que (e eu incluído) frequentam este tipo de terreno e mesmo os tais tectos do Mexilhoeiro (eu vou deixar de frequentar . . . ).
No Verão passado a Desnível alertou a Câmara Municipal de Cascais para o processo de instabilização gradual em que se encontrava parte da escadaria de pedra de acesso à base da Escola de Escalada da Guia, o que levou a uma avaliação técnica por parte de diversas entidades e desencadeou uma pequena obra (efectuada em Novembro), que garante maior segurança ao público que frequenta o local, antecedendo uma futura estabilização.
Mas essa escadaria é uma infra-estrutura, enquanto uma arriba natural não o é.
Daqui advêm diferentes critérios de risco e de segurança, que todos conhecemos e aceitamos.
Os praticantes sabem que desportos de aventura pressupõem riscos, e da sua avaliação e prudência decorre o sucesso e segurança da actividade.
Mas, como Associação, teremos de fazer uma avaliação dos riscos envolvidos nos vários sectores destas Escolas de Escalada para, eventualmente, tentar fechar zonas de risco ou colocar painéis informativos.
Paulo Alves
(Geólogo e Membro da Direcção da Desnível)
