Editorial
23/04/2004
A Outra Face
As peripécias ocorridas no último Carnaval na Serra da Estrela vieram lembrar, mais uma vez, os numerosos e, infelizmente, já tradicionais incidentes e acidentes que, com maior ou menor gravidade, todos os anos marcam o maciço mais elevado de Portugal. Desta feita foram grupos perdidos e veículos retidos pela neve, portanto nada de novo se tivermos em consideração o vasto historial de casos conhecidos. Os exemplos não faltam.
No dia 14 de Fevereiro de 1999 duas crianças caíram no Corredor Sem Nome junto ao Cântaro Magro. Em Janeiro de 1997, um professor de música, de 29 anos, foi resgatado a cerca de 80 metros do cume do Cântaro Magro. O Inverno de 1997 foi também marcado pelo acidente de um jovem de 16 anos, que esteve desaparecido durante oito horas, depois de uma queda de 30 a 40 metros. Foi encontrado desfalecido e com um traumatismo craniano, cerca da meia-noite, na barragem do Padre Alfredo.
No dia 26 de Fevereiro de 1995, centenas de turistas ficaram retidos diversas horas na zona da Torre, aguardando que o Centro de Limpeza de Neve desbloqueasse os acessos. Em Dezembro de 1994, um veículo ligeiro despenhou-se numa ravina de mais de 100 metros de desnível, tendo o condutor falecido. No dia 21 de Novembro do mesmo ano, já se tinha verificado um despiste que originou também a morte do condutor. Em Março de 1994, um ferido demorou três horas para ser transportado das pistas de esqui, situadas na área da Torre, até ao hospital da Covilhã.
No dia 15 de Fevereiro de 1991 cerca de uma centena de turistas ficaram bloqueados pela neve, na zona do Covão da Ametade. No dia 4 de Julho de 1987, um autocarro despistou-se junto do Sanatório provocando a morte a 21 pessoas. Um dos mais trágicos acidentes que ocorreram na Serra da Estrela.
No dia 4 de Abril de 1985, três pessoas foram encontradas mortas a poucos metros da Torre, dentro do carro bloqueado pela neve. Em Abril de 1983 deu-se o falecimento de um alferes pára-quedista que participava em exercícios militares de montanhismo. O corpo do malogrado militar esteve 18 dias sob a neve. Em Maio desse mesmo ano um autocarro com turistas ficou bloqueado, de um dia para o outro, nos Covões de Loriga. Em Abril de 1982, centenas de turistas, que ficaram bloqueados pela neve, entre a zona da Nossa Senhora da Boa Estrela e a Torre, tiveram de se deslocar a pé até às Penhas da Saúde em busca de abrigo e auxílio. Em Abril de 1981 um automóvel caiu de um precipício de 50 metros e miraculosamente os sete passageiros (entre eles duas crianças) não sofreram lesões de maior.
Parte destes acidentes são rodoviários, mas muitos outros resultam da prática de montanhismo. A lista não é de modo algum exaustiva, mas documenta a frequência, tipologia e gravidade das situações. Não se pode esquecer, contudo, os "pequenos" incidentes resultantes do desconhecimento da montanha. É frequente os grupos que passeiam na serra perderem-se, devido a nevoeiro ou outras razões, sendo muitas vezes ajudados por pastores. Os bivaques forçados em vários pontos da serra, incluindo o Cântaro Magro, também não são desconhecidos.
Mas os acidentes em montanha não se circunscrevem, de modo algum, à Serra da Estrela e muito menos ao território nacional. Lembrem-se os casos ocorridos na Madeira, a 4 de Outubro de 1997, ou na Serra do Gerês, a 18 de Agosto de 1994. De t-shirt e calções, sem mapa, bússola, alimentos ou roupa de abrigo, cerca de 70 candidatos a guardas florestais foram largados, numa manhã de sábado, nas montanhas da Ilha da Madeira para efectuarem um percurso pedestre. Sofrendo de hipotermia e esgotamento, nem todos chegaram ao fim. Desta iniciativa resultaram três mortos. Em 1994, dois jovens ficaram retidos, durante 18 horas, numa ravina da Serra do Gerês. Os Bombeiros Voluntários de Terras do Bouro e das Taipas não os conseguiram resgatar. Seguiram-se um helicóptero dos Serviços Florestais e um da Força Aérea. Os jovens só foram resgatados quando um escalador do Clube de Montanhismo de Braga subiu até ao local e os desceu.
Os exemplos são, mais uma vez, numerosos e diversificados, quer em Portugal quer no estrangeiro. O último domingo de Carnaval (22 de Fevereiro de 2004) nunca mais será esquecido pelo trágico acidente que resultou no falecimento de um montanhista português na Portilla Bermeja, próximo do Pico Almanzor (Gredos). Assim como outros dias que ficaram infortunadamente marcados por acidentes com portugueses nesse e noutros maciços.
Os perigos objectivos e subjectivos não são novidade para os montanhistas mas quantas vezes são ignorados por simples desconhecimento ou incúria? O risco é um dado adquirido e até, por vezes, algo que dá uma certa "aura" a quem pratica actividades de montanha. No entanto, os perigos traduzem-se com frequência na ocorrência de incidentes e acidentes com consequências por vezes mortais. Esta é uma outra face da montanha, muitas vezes esquecida ou ignorada mas nem por isso menos presente. Uma dura e por vezes incompreensível realidade que dá inevitavelmente que pensar. Pensar, que mais não seja, para evitar os erros do passado!
Pedro Cuiça
