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Editorial
6/10/2003

A Saga das Federações

Um dos factores essenciais para o bem-estar é a auto-estima. Diz-se que os portugueses a têm em baixo. Muitos praticantes de desportos de montanha em Portugal usam a natureza e a pratica desportiva de natureza como refúgio dos dissabores da vida e forma de "recarregar baterias". Mas quando pretendem evoluir tecnicamente ou trabalhar nesta área, confrontam-se com a necessidade de apoios, regulamentação e formação. É neste contexto que as federações e os clubes surgem como elos determinantes para o desenvolvimento e prática sustentada do montanhismo. Mas aqui, o panorama tem sido pintado continuamente de negro, especialmente no que toca às federações e, concomitantemente, isso afecta o desempenho dos clubes e de toda a modalidade. Quem tem acompanhado de perto toda esta saga não poderá deixar de sentir um certo enjoo ou mesmo náusea!

A Federação Portuguesa de Campismo (FPC) tentou durante demasiado tempo representar um conjunto de modalidades que, nem que seja por nome e vocação, não têm nada a ver com o campismo. Foram anos perdidos e, em certa medida, desprestigiantes. Em 2002 surge finalmente uma federação de montanhismo: a Federação Portuguesa de Montanhismo e Escalada (FPME). Mas face à recusa da FPC em deixar de tutelar o montanhismo e perante uma atitude passiva por parte do Instituto Nacional do Desporto (IND) tudo veio a ficar legalmente na mesma. A FPC, espicaçada e afectada por uma verdadeira "sangria" de clubes, técnicos e praticantes, que passaram a apoiar a FPME, tem procurado apresentar mais trabalho e cativar alguns dos técnicos e atletas que saíram. Mas o que tem sido feito continua a ser maioritariamente medíocre:

  • Após vários anos sem promover a formação de técnicos, realizou um curso de canyoning que foi apresentado como sendo para formar monitores, com requisitos de admissão e carga horária de um curso de iniciação (!), e recurso a alguns formadores com credenciações e competências técnicas no mínimo duvidosas;
  • A FPC cumpriu finalmente a sua promessa de enviar os atletas melhor classificados ao campeonato europeu, acção que seria de louvar não fossem as elevadas despesas envolvidas; quando não há dinheiro para outras acções fundamentais como seja garantir a existência de um campeonato nacional que este ano não realizou.
Infelizmente a FPC continua a não querer compreender que, sem praticantes e clubes de montanhismo, não se deve tutelar a modalidade. Em vez de procurar uma saída honrosa, ou trabalhar seriamente em prol do montanhismo, parece estar mais interessada em gastar a maior parte das suas energias a sabotar e contrariar o trabalho da FPME.

A FPME que trabalha para vir a ser reconhecida como entidade que tutela os desportos de montanha em Portugal tem razões para se sentir feliz com estes desaires, ainda para mais quando vai conseguindo organizar um conjunto de provas nacionais e recentemente foi aceite na European Ramblers Association (ERA), a federação europeia de pedestrianismo.

Apesar de eu, desde o início, ter apoiado e acompanhado a FPME, as frustrações continuam a esmorecer-me as alegrias. É triste que se jogue com a mesma estratégia que a FPC e se utilizem os atletas para fazer markting com vista à depreciação dos rivais. Veja-se a nota associada à participação de dois atletas que representaram a FPC no estrangeiro e que agora se inscreveram na FPME. Outros não o fizeram e com comunicados e restrições infelizes estabelecem-se rupturas e feridas difíceis de sarar. A recente informação sobre a inscrição na ERA é igualmente infeliz.

Exige-se uma nova imagem, um novo estilo! Informação sim, mas o "bota abaixo" é uma estratégia deplorável e geradora de conflitos sempre indesejáveis. Como sabemos, um factor determinante de afirmação é o trabalho realizado, idealmente de qualidade e que abranja as áreas prioritárias. Reconheço que não é fácil fazer milagres sem apoios e com o espírito de associativismo que reina em Portugal, mas nalgumas áreas era possível e desejável fazer mais e melhor. O trabalho realizado a nível da formação é positivo, mas quando se vai passar para a prática? Como tem sido tratada a questão das credenciações dos técnicos desportivos? Está no papel? Não estava já quando a penúltima Comissão Técnica da Escola Nacional de Montanhismo (ENM) da FPC se demitiu?

Enfim, as críticas aqui apresentadas não visam maldizer seja o que for, disso já estamos bem servidos, mas estimular as pessoas a uma reflexão e a um trabalho mais digno e consistente. A situação actual do montanhismo em Portugal a isso obriga e, se apenas uma pessoa mudar de atitude, a minha intervenção já serviu para alguma coisa. Porque o que está em causa é uma mudança de atitudes.

Francisco Silva
fs@adesnivel.pt

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