À Descoberta dos Últimos Encantos
por Francisco Silva
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| Durante as primeiras explorações dos Canyonings do Gerês, sem equipamento adequado e recorrendo a técnicas de montanhismo.
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Em Portugal a história do canyoning inicia-se no Gerês em 1989. Um grupo de montanhistas atraídos pela inacessibilidade e beleza de alguns vales mais encaixados muniram-se de equipamento de escalada e partiram à descoberta de alguns canyons. Estes vales profundos escavados por linhas de água selvagens, eram então os últimos segredos das maravilhosas paisagens do Gerês. O que encontraram ultrapassou todas as suas expectativas. As surpresas sucederam-se: piscinas naturais, cascatas e gargantas, ladeadas de impressionantes fragas. Para progredirem foram forçados a mergulhar nas águas cristalinas mas geladas. Felizmente as mochilas flutuam, e uns simples sacos de plástico mantêm seca a indumentária necessária para aquelas caminhadas. Com recurso a cordas e a material de escalada, atravessaram as cascatas e os obstáculos mais difíceis. Em breve voltaram com equipamento mais apropriado: fato de neoprene, saco estanque e material para equipar os rapeis.
A experiência foi compartilhada, surgiu uma corrida à descoberta de novos rios selvagens repletos de cascatas e piscinas. Os olhos percorreram mapas topográficos à procura de indícios de rios declivosos e as descobertas sucederam-se. Umas vezes já as mini-hidricas tinham chegado e infelizmente, por vezes, sem qualquer respeito pelo ambiente atolaram o leito de pedra, ou deixaram cicatrizes na paisagem difíceis de sarar. Paradoxalmente alguns são empreendimentos recentes subsidiados pelos fundos comunitários mas que não respeitam os obrigatórios estudos de impacte.
Hoje a maioria dos percursos de canyoning existentes no nosso país encontram-se descobertos, mas muitos ainda não estão divulgados devido a receios de que a generalização desta actividade possa influir negativamente no equilíbrio ecológico de alguns dos mais ricos ambientes naturais do nosso país que por vezes, representam o último habitat de espécies ameaçadas.
Embora sem a extensão ou imponência dos canyons mais famosos da Europa, em Portugal estes percursos usufruem de algumas particularidades que os tornam muito apelativos. Como as águas não resultam do degelo, em geral são bastante cristalinas, e apresentam temperaturas suportáveis, ou mesmo apetecíveis. Os percursos de canyoning mais interessantes localizam-se na Serra do Gerês, Alvão e Arada - Montemuro. No entanto, os mais frequentados não são necessariamente os mais espectaculares, já que a maior parte dos praticantes desta actividade recorre a circuitos comerciais que privilegiam a acessibilidade e menores contingências. Embora a prática do canyoning a um nível elementar seja bastante acessível, não está ausente de riscos, que são frequentemente subestimados. Os perigos resultam essencialmente da dificuldade de evacuação e do risco de queda e entorses resultantes do terreno ser muito irregular e escorregadio. Esses risco podem ser bastante diminuídos se as descidas forem acompanhadas por monitores. Nos canyons mais difíceis os perigos estão mais relacionados com a dificuldade técnica em montar os rappeis, descer por cascatas de grande caudal, a fadiga e o enregelamento.

