Breve história do Canyoning
por Francisco Silva
Foi a insistente procura de ambientes de beleza impar, protegidos da acção humanizadora e a atracção pela aventura, que levaram os montanhistas e espeleólogos a explorar o fundo dos vales mais profundos, reduto de rios vertiginosos. Devido à morfologia e geologia algumas regiões tornaram-se rapidamente em verdadeiros santuários do canyoning, como é o caso da Serra de Guara, em Espanha e do Verdon, em França.
Sensivelmente a partir de meados da década de 1970, o canyoning tornou-se uma actividade colectiva. Em 1977 Pierre Minvielle edita o primeiro topo-guia com a descrição de diversos canhões, mas foi com a edição topo-guia de Paul Montroue: "Les canyons de Serra de Guara", editado em 1980, que a modalidade sofreu um grande impulso. Começaram a aparecer os primeiros profissionais que se dedicaram a guiar grupos na Serra de Guara e o canyoning expande-se para outras regiões, nomeadamente para os Pirinéus, Alpes e Maciço Central de França.
Em Portugal a pratica da modalidade de canyoning iniciou-se com a descida dos rios Fafião e Cabril no Gerês, em Setembro de 1989, por Francisco Silva e Manuel João. Dois meses depois um grupo de franceses liderado por Fréderic Feu, ligado à empresa de desportos de aventura Atalanta, iniciava as primeiras descidas de canyoning na ilha da Madeira. Nos Açores a primeira abertura de um percurso de canyoning referenciada é de 1997, com a descida do troço superior da Ribeira da Praia, pelos irmãos João e Paulo Pacheco.
As primeiras experiências foram compartilhadas, surgiu uma corrida à descoberta de novos rios selvagens repletos de cascatas e piscinas. Os olhos percorreram mapas topográficos à procura de indícios de rios declivosos e as descobertas sucederam-se.
No Continente foram abertos e equipados progressivamente novos itinerários, especialmente com o empenho de duas equipas, uma da região de Lisboa (Francisco Silva, Paulo Alves e alguns amigos), outra do Porto coordenada pelo Pedro Pacheco.
Na Madeira após a exploração inicial, alguns madeirenses abriram diversos itinerários, tendo nos últimos anos existido um impulso significativo na prática da modalidade no território, com o trabalho desenvolvido por equipas locais, alguns franceses muito dinâmicos dos quais se destaca o Antoine Florin e diversos técnicos da Associação Desnível. Esta associação passou mesmo a organizar conjuntamente com o Clube Maresia estágios regulares: 2003, 2005 e o próximo em 2007.
Nos Açores o grande contributo para o desenvolvimento desta modalidade tem sido dado pela Associação Desnível que, entre 2002 e 2006 já realizou no arquipélago cinco expedições, dois estágios e um curso nível II.
Apesar da maioria dos canyonings em Portugal Continental, já estarem descobertos e equipados, e alguns comercializados por empresas de animação desportiva, continua a existir um atraso significativo desta modalidade em Portugal, nomeadamente na divulgação, enquadramento, gestão ambiental e na formação/credenciação de técnicos e monitores. Esse atraso é, em grande parte, justificado por não existir um trabalho a nível federativo. De facto, a tutela desta actividade está atribuída à Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal (FCMP), mas esta pouco ou nada tem feito pela modalidade, tendo mesmo conseguido afastar grande parte dos praticantes desta modalidade que estão inscritos em associações e clubes filiados na Federação Portuguesa de Montanhismo e Escalada (FPME). No entanto, sem apoios esta federação pouco tem conseguido fazer pela modalidade.
Assim, tem sido a Associação Desnível (inscrita na FPME) a principal entidade a promover esta actividade em Portugal. Desde 2002 que a Associação Desnível desenvolve um plano de actividades e de formação em canyoning consistente, centrado na divulgação e promoção da modalidade, na organização de estágios e expedições e num plano de formação organizado em quatro níveis.
Actualmente, esta associação conta com diversos monitores certificados pela Escola Francesa de Descida de Canyons da Federação Francesa de Espeleologia e outros resultante de formação interna.
